A ansiedade e como ela tem devorado teus dias e tua mente.
- Renally Guedes
- 3 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Há uma sensação silenciosa que se instala aos poucos, quase imperceptível no início. É como um sussurro interno que diz que algo não está certo, que algo ruim está prestes a acontecer mesmo quando, racionalmente, sabemos que nada mudou. A ansiedade não chega pedindo licença. Ela ocupa espaço, contamina a rotina e começa a engolir momentos que antes eram leves, naturais, espontâneos. E muitas vezes, quando nos damos conta, ela já está devorando nossos dias e a nossa mente.
A ansiedade é parte da vida. É uma resposta natural diante do novo, do desconhecido, do que exige atenção. O problema começa quando deixa de ser proporcional, quando se transforma em vigília constante, quando passa a operar como se o teu corpo estivesse o tempo inteiro tentando te proteger de uma ameaça que não existe. É nesse ponto que ela cansa, desgasta, desorganiza. A pessoa ansiosa vive no futuro imaginando tudo que pode dar errado — enquanto o presente se torna um lugar estreito, apertado e difícil de habitar.
Com o tempo, essa antecipação constante cobra um preço alto. A mente perde a capacidade de descansar, porque está sempre “ligada” a algo. O corpo adoece: tensão muscular, insônia, palpitações, mudanças no apetite, dores de cabeça, irritabilidade. E a vida vai ficando menor. As escolhas passam a ser influenciadas pelo medo, não pelo desejo. As oportunidades são evitadas, não porque não se queira vivê-las, mas porque a ansiedade convence que tudo é arriscado demais. A pessoa começa a se sentir refém da própria mente.
É importante lembrar: ninguém escolhe viver ansioso. A ansiedade se instala como um mecanismo de sobrevivência que foi sendo hiperativado ao longo dos anos seja por experiências passadas, seja por sobrecarga emocional, seja por padrões aprendidos na infância, seja por um estilo de vida que exige mais do que o corpo consegue dar. Às vezes, ela nasce de feridas antigas que nunca foram elaboradas. Outras vezes, surge do excesso de autocobrança, da necessidade de dar conta de tudo, de ser tudo, de não falhar nunca.
E isso é fundamental de entender: a ansiedade não significa fraqueza. Pelo contrário, muitas pessoas ansiosas são exatamente aquelas que sempre se esforçaram demais, que sempre tentaram controlar tudo, que carregaram responsabilidades grandes ou que viveram muito tempo em ambientes imprevisíveis. O corpo aprendeu a se antecipar ao perigo porque um dia isso foi necessário. Hoje, esse mecanismo continua funcionando — só que agora, de forma desregulada.
Quando a ansiedade domina os dias, ela rouba pequenas coisas que antes pareciam simples: o prazer de acordar sem pressa, de fazer uma refeição com calma, de responder mensagens sem sentir o peso de estar “devendo” algo, de estar num encontro sem pensar no que poderia dar errado. Rouba também a confiança em si. A pessoa começa a duvidar das próprias capacidades, entra num ciclo de autocrítica, fica mais vulnerável a pensamentos catastróficos. O mundo parece perigoso. Ela mesma parece insuficiente.
Mas a ansiedade pode ser compreendida e regulada. Ela não define ninguém. E, apesar de parecer maior que tudo, ela é tratável. O processo de enfrentamento passa por alguns caminhos essenciais:
1. Nomear o que acontece.
Ansiedade não é frescura, não é drama, não é exagero. É um funcionamento emocional fisiológico que precisa ser entendido.
2. Reconhecer os gatilhos.
Quais situações aumentam a tensão? Quais pensamentos alimentam o medo? Quais padrões se repetem?
3. Aprender a retornar ao corpo.
Respiração, grounding, relaxamento muscular e rotinas mais brandas ajudam a reorganizar o sistema nervoso.
4. Reestruturar pensamentos.
A mente ansiosa interpreta o mundo pelo viés do risco. No tratamento, aprendemos a identificar distorções e construir respostas mais realistas.
5. Acolher a história que te trouxe até aqui.
Muitas vezes, a ansiedade está ligada a vivências que ainda pedem elaboração. Processá-las é parte da cura.
6. Construir novas formas de viver.
Os pequenos hábitos — sono, alimentação, limites, pausas — são fundamentais na regulação da ansiedade.
Buscar ajuda não é sinal de derrota, mas de coragem. Terapia não apenas reduz sintomas: ela devolve clareza, presença, autonomia e o sentido de autoria da própria vida. Aos poucos, a pessoa vai percebendo que pode respirar sem medo, que não precisa estar em alerta o tempo inteiro, que pode existir sem tanta exigência, que é possível viver o presente sem se perder no amanhã.
A ansiedade pode até tentar devorar seus dias — mas você pode aprender a interromper esse ciclo. Pode recuperar os espaços internos que pareciam perdidos. Pode reconstruir sua relação consigo mesma e com o mundo.
E, quando isso acontece, a vida volta a caber dentro de você.


Comentários